terça-feira, 5 de julho de 2011

Gabriela - Parte 8

Kevin já havia sido preso duas vezes. Já havia passado dois anos internado em um centro de tratamento e só havia sido liberado por ter ótima aparência mental, e por ser extremamente manipulador, claro. Sua casa aparentava um perfeito cenário para um filme de terror. Era um daqueles sobrados velhos de madeira que só existiam em cidades históricas, mas que, por algum motivo, estava no centro de uma capital federal. Se houvesse uma festa de “Halloween” no Brasil, as crianças não tocariam a campanhia daquela casa para pedir gentilmente “doces ou travessuras”. Não mesmo. E foi exatamente isso que deixou Gabriela hesitante em tocar a campanhia. A garota viu um vulto e, por impulso, deu um grito.

-Você! – Disse o vulto – Você era a última pessoa que eu esperava ver hoje, Gabriela!

- Kevin! – disse a garota quase chorando.

- Ah, querida, eu não a vejo faz tanto tempo! – Disse Kevin sem emoção nenhuma na voz. – Que infortúnio a traz a minha casa?

- Eu preciso de você... Por favor, Kevin! Eu não conheço ninguém que possa me ajudar!

- Vamos, entre. Está fazendo muito frio hoje.

A sala de visitas era enorme e espaçosa demais. Não havia nenhum sofá, nenhum carpete, nenhuma televisão, não havia absolutamente nada. Apenas uma parede recém-pintada e um chão de pedra extremamente limpo.

- Estou reformando minha casa, dando a ela pequenas doses medievais à medida que tenho tempo para aplicá-las. Vamos até a cozinha, poderemos nos sentar lá.

A cozinha não tinha nada de medieval. Tinha até um ar futurístico. A questão era que Kevin sempre fora um excelente cozinheiro e provavelmente não iria abrir mão de sua cozinha de última geração para “aplicar doses medievais”.

- Chocolate quente?

Na verdade a garota se sentia faminta. Não havia comido nada o dia inteiro. Nem nada a noite inteira, qualquer coisa cairia perfeitamente bem àquela hora da madrugada.

- Ah, por favor, estou morrendo de fome.

- Mas então, Gabi, que tipo de ajuda você precisa?

- Eu quero... Eu preciso deixar de ser eu. Eu preciso mudar não só por fora, mas por dentro também.

- Ah, você está apaixonada, querida. Por que não disse antes? – era impressionante como Kevin não adicionava nenhum tipo de emoção enquanto falava.

- Eu não estou apaixonada! – disse a garota com o tom de voz visivelmente alterado, corando em seguida. – Eu não...

- Gabriela, apenas coma e pare de falar. – Kevin estava com uma faca na mão e a usou para afastar uma mecha de cabelo. Isso assustou um pouco Gabriela que repetia pela segunda vez a porção de sanduíches à sua frente. – Mudar alguém não é fácil, não mesmo. Você é uma patricinha metida à besta, gosta de funk e todas essas porcarias de hoje em dia. Pelo seu desepero, presumo que seu futuro ex-namorado esteja relacionado com o bom e velho rock, só uma pergunta... Você acha que sou santo pra fazer um milagre acontecer?– Kevin agora estava muito próximo da garota, o que a fazia sentir um terrível desconforto. – Se você quiser uma hora com uma médium eu posso até arranjar, mas...

- Kevin, por favor! – a garota estava totalmente aterrorizada e isso fez com que ela não se movesse. Kevin estava apenas a poucos centímetros de Gabriela e, ao invés de enfiar a faca em seu pescoço, ele apenas sorriu e colocou a faca encima da mesa, com o palmo apoiado nela. – Você é o único que eu conheço que gosta de Heavy Metal e tudo isso...

- Ah, não. Eu gosto de Cultura, querida. Não se trata de Heavy Metal, nem de andar de preto, não mesmo. Se você quer REALMENTE mudar, você vai ter que abrir mão de tudo, você realmente quer isso?

- O que eu tenho que fazer?

- Gostaria de sumir por uns tempos, Gabriela?

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